por Carol Masotti,
Não sei sentir.
Não quero mais sentir.
Por trás de palavras doces,
sinto o gosto do fel
e do veneno que se espalha,
percorrendo a corrente sanguínea,
até atingir o coração.
Por trás de olhares misteriosos
vejo o brilho do metal
e a faca perfurando a carne,
pelas costas,
vertendo todo o sangue,
matando a pureza,
desfalecendo o engano....
fazendo brotar um leve sorriso de satisfação.....
Vejo em cada atitude, uma suspeita...
eu paro,
analiso,
fico na espreita....
Olho para os lados
e por trás do falso interesse,
dos falsos gesto de bondade e caridade
vejo expressões vazias,
desejos macabros
e a vontade de ver o outro no chão...
Olho para frente
e não vejo nada....
não tenho perspectiva para um futuro....
pessoas? Não acredito nelas....
futuro? O que é o futuro?
Espero sem forças o golpe de misericórdia....
hoje, caída, não tenho forças pra levantar....
o sol escaldante queima minha pele
e o tempo rasga estas marcas,
novamente as abre, as faz sangrar,
feridas eternamente abertas....
pútridas
fétidas
E eu sem chão,
sem ter em que acreditar,
sinto o escárnio
e o escarro
daquilo que se chama vida.
quinta-feira, 7 de março de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Poema em linha reta
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
[538]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido
mesquinho e infame da vileza.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
"Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. E a gente lembra. E já não dói mais. Mas dá saudade. Uma saudade que faz os olhos brilharem por alguns segundos e um sorriso escapar volta e meia, quando a cabeça insiste em trazer a tona, o que o coração vive tentando deixar pra trás." - Caio Fernando Abreu.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Poesia nova
Era uma montanha gelada....
Não havia vida, não havia nada....
O vazio sussurrava palavras de aflição
As ventanias dançavam uma dança rápida,
Como se buscassem fugir dali,
Buscassem outra direção....
No meio deste ambiente inóspito,
Uma árvore com tronco retorcido,
Pequena,
Cinza,
Inválida.
Impossível não olhar pra ela.
Ela está ali,
Quebrando a paisagem gélida,
Ela atrapalha a devastação.
Uma árvore nasceu
Em meio a toda esta podridão,
Desafiou o solo infértil,
Todo o frio,
E mostrou,
Que não importa seu tamanho,
O importante é vencer a escuridão.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Go Back
Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente a madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou
Passou daqui pra melhor, foi!
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente a madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou
Passou daqui pra melhor, foi!
Não é o meu pais
É uma sombra que pende concreta
Do meu nariz em linha reta
Não é minha cidade
É um sistema que invento
Me transforma
E que acrescento
À minha idade
Nem é o nosso amor
É a memória que suja
A história
Que enferruja o que passou
Não é você
Nem sou mais eu
Adeus meu bem
(adeus adeus)
Você mudou
Mudei também
Adeus amor
Adeus e vem
É uma sombra que pende concreta
Do meu nariz em linha reta
Não é minha cidade
É um sistema que invento
Me transforma
E que acrescento
À minha idade
Nem é o nosso amor
É a memória que suja
A história
Que enferruja o que passou
Não é você
Nem sou mais eu
Adeus meu bem
(adeus adeus)
Você mudou
Mudei também
Adeus amor
Adeus e vem
Só quero saber do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder.
Não tenho tempo a perder.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
21.11.2012
Este masoquismo mórbido...
Estes tremores súbitos,
Me consomem,
Não somem,
Não soma,
Me puxa para baixo,
Para o fim do poço....
Se ao cavar a terra,
O buraco profundo me engolisse
E me levasse de volta ao passado....
Talvez um túnel do tempo
Me devolvesse as cores,
A esperança,
Os amores....
A vontade de viver
E de ser quem eu sou.....
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